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ORIGENS DO LUTERANISMO

Martinho Lutero nasceu em 10/11/1483 na cidade de Eisleben, Alemanha. Oriundo de uma família temente a Deus, seu mundo era dominado por temores e superstições. Cresceu com a noção de que Jesus era um juiz irado e severo e não um Salvador amoroso.

Frequentou escolas em Mansfeld, Magdeburg e Eisenach como qualquer menino de sua classe social (o pai era mineiro). É a partir da entrada na Universidade de Erfurt, na época, o maior centro universitário de Alemanha, aos 17 anos, que a sua trajectória começa a tornar-se encomum.

 Para satisfazer o desejo do pai, envereda pelos estudos do Direito. Passados três anos, surpreende professores, amigos e, especialmente o pai ao tomar a decisão de ser monge. A mudança, porém, não tinha sido tão repentina como parecia. Apesar do aparente contentamento exterior, seu coração estava perturbado. A educação superior não tinha modificado os seus conceitos sobre Deus e seus temores do castigo eterno. Não conseguia ter a certeza do perdão de Deus. Por isso achava que um monge poderia ter todo o tempo disponível para meditação religiosa, oração e boas obras, e assim obter a paz.

 Escolheu o Convento da Ordem dos Agostinianos, caracterizado pela austeridade. Fez os votos monásticos, tornou-se sacerdote e passou a celebrar missas. Suas dúvidas, porém, persistiam: Deus é perfeitamente santo, e ele exige santidade de todos aqueles que chegam à sua presença. Lutero sabia que era um pecador. Então, como ser salvo? A igreja apontava para a confissão e para uma vida monástica, cujas boas obras poderiam agradar a Deus. Mas continuava inquieto: Será que tinha se lembrado de todos os seus pecados na confissão? Será que tinha feito boas obras suficientes para ganhar o favor de Deus? Punha-se, então, a flagelar-se a si mesmo, a longos períodos sem se alimentar, a orar durante noites inteiras, etc.

 Surge, então, o convite para dar aulas de filosofia na Universidade de wittemberg, fundada pelo duque Frederico da Saxónia. Começa a estudar teologia, recebe permissão para dar aulas sobre a Bíblia e, assim, aprofundar-se no estudo das línguas originais da Bíblia.

 Em 1512, torna-se Doutor em Teologia, assumindo, a seguir, o cargo prelector titular da Bíblia. Ao trabalhar nas anotações para as suas aulas, Lutero faz a grande descoberta que vem trazer resposta para as sua angústias. Ao estudar expressão "justiça de Deus" na carta aos Romanos, Lutero encontra nela um novo significado. Até então, "justiça de Deus" significava para ele a rectidão de Deus castigando pecadores, as exigências feitas aos seus filhos e a recompensa por qualquer boa obra.

 Ao reflectir sobre o abandono de Cristo na cruz, carregando as iniquidades dos homens, Lutero entende a "Justiça de Deus" como uma prenda gratuita, nomeadamente o perdão dos pecados, para todo aquele que crê que Jesus sofreu e morreu em seu lugar. Pela primeira vez, Lutero teve certeza do perdão e viu Jesus como um bondoso Salvador.

 Surgem as indulgências, que eram "cartas de crédito", com assinatura e selo do papa, que as pessoas podiam comprar para adquirir méritos e diminuir penas no purgatório. Metade do dinheiro era destinado para a construção da Basílica de São Pedro em Roma; a outra metade era destinada para pagar a dívida de Alberto de Brandeburgo na compra de cargos políticos acumulados na igreja. Mesmo sendo ainda necessário confessar-se perante o sacerdote, arrependimento e fé tornaram-se artigos raros.

 Lutero pregou sermões enérgicos contra as indulgências, mesmo correndo o risco de desagradar o Eleitor Frederico, que muito o admirava. O eleitor tinha uma colecção de relíquias na Igreja do Castelo, a qual recebiam indulgências que encurtavam longos anos no purgatório. O dinheiro era destinado para a manutenção da igreja e da universidade. O compromisso de Lutero era com Deus e com a saúde espiritual do povo.

 No dia 31 de Outubro de 1517, véspera de Todos os Santos, Lutero afixa na porta da Igreja do Castelo uma grande folha de papel com 95 teses escritas em latim, enfatizando especialmente que as indulgências não concediam o perdão dos pecados e levavam o povo a pensar que o viver cristão não era importante.

Lutero não tinha o objectivo de causar divisões, mas buscar diálogo com a igreja. As teses foram espalhadas por toda a Europa. A igreja sentiu-se ameaçada e tentou silenciar Lutero. Este porém, obteve apoio de várias partes, em especial do Eleitor Frederico, um protector poderoso. Sabendo que o papa precisava muito da sua ajuda no combate aos turcos e numa possível eleição do novo Imperador, visto que Maximiliano estava já velho e adoentado, Frederico pede que Lutero tenha uma boa chance de explicar as suas ideias.

 O encontro com o Cardeal Caetano não é nada favorável a Lutero. O outro enviado do papa, Miltitz, porém, retorna a Roma com parecer favorável a Lutero. Não podendo ficar calado, frente às acusações que lhe eram feitas, Lutero tratava com o Dr. Eck, em 1519, um debate em que, de entre outros temas, defendeu a Bíblia como infalível palavra de Deus. No final deste debate, verificou-se quão longe Lutero estava dos ensinamentos de Roma.

 Ao tomar conhecimento das posições de Lutero, o papa envia-lhe uma bula, decretando que, caso não se retractasse em 60 dias, seria excomungado. Ao receber a bula, Lutero queimou-a. O novo Imperador, Carlos V, tentando não desagradar aos príncipes que o elegeram, convoca Lutero para a Dieta de Worms, em 1521, onde Lutero seria examinado, interrogado e teria direito a explicar-se.

 No final do 2º dia, diante da exigência de retractação pelo que escrevera, Lutero é enfático: "A menos que me convençam, pela escritura ou por razões claras, de que estou errado, permaneço constrangido pelas escrituras... Não é seguro nem é correcto agir contra a consciência. Deus me ajude. Amém."

 Lutero foi declarado um fora-da-lei pelo Imperador. De volta para casa, é "sequestrado", a mando do Eleitor Frederico, e levado para o Castelo de Wartburgo, onde permaneceu sob o cognome de "Cavaleiro Jorge".

 No tempo em que aí permaneceu (11 meses), escreveu livros, panfletos e cartas. Numa tarefa soberba, traduziu o Novo Testamento do grego para o alemão, em linguagem acessível ao povo.

 Ao voltar para Wittemberg, reassumiu as suas funções na universidade e também como pastor de um povo carente do evangelho. Muito trabalhou na reforma e na criação de novas escolas, tornando-se um pioneiro no terreno da educação.

Escreveu dois catecismos, um para os adultos e outro para que os pais ensinassem os filhos de uma maneira simples as verdades das Escrituras. Compôs vários hinos e elaborou um hinário para que o povo tivesse uma participação mais activa nos cultos. Traduziu, com o auxílio de eruditos em hebraico da Universidade de Wittemberg, a Bíblia completa para o alemão. Incentivou o povo a uma nova vida em que o aprendizado não mais estava limitado ao mosteiro.

 O lar cristão tomou o seu lugar, onde Deus certamente habita através da leitura bíblica, do louvor e da oração.

 Nunca foi intenção de Lutero fundar uma nova igreja. Desejou sim, que a igreja corrigisse erros praticados e retornasse à doutrina pura, conforme ensinada por Cristo e seus apóstolos.

 Com o passar do tempo, o grupo de apoiantes foi aumentando e, a despeito das objecções de Lutero, a nova comunidade passou a ser chamado pelo povo de "Igreja Luterana".

 Em 1530, os Príncipes luteranos foram convocados pelo Imperador a apresentarem por escrito suas crenças. Na Dieta de Augsburgo, foi lida esta declaração de fé, conhecida como Confissão de Augsburgo, ainda hoje mantida pelos luteranos.

Lutero casou-se, em 1525, com Catarina Von Bora. Teve 6 filhos. Faleceu em 18/02/1546, na mesma cidade onde nasceu, Eisleben.



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